terça-feira, 13 de julho de 2010

Patriotismo: chega de auto-piedade.

Procissão do Fogaréu na Cidade de Goiás

Lástima. Depois que escolhi esse tema, planejei pesquisar diversas coisas para escrever aqui com um pouco mais de segurança, mas algo estranho ocorreu na minha república: depois que uma criatura resolveu usar o secador de cabelo às 1h da manhã a internet da casa não funciona mais. Há 4 dias. Sabotagem de um vizinho ensandecido pelo ritual vaidoso de uma das moradoras da minha casa? Culpa dos servidores de internet tão picaretas e precários de nosso país?

Aposto que você pensou na segunda opção quando comecei a reclamar que estava sem internet… Nossos serviços são porcos, as músicas nacionais são ridículas, essa nossa mania de futebol é coisa de país de terceiro mundo, gostar de tanto feriado só mesmo aqui, em um país de terceiro mundo, nossos políticos roubam blá, blá. Canso de ouvir essa ladainha de “somos coitadinhos repugnantes, sem cultura, mal educados, corruptos, superficiais” e não ver ninguém observando o tanto de gente que não se identifica com nada disso. NADA.

Se você acha que patriotismo é sentir orgulho da cultura nacional, te pergunto, quantos da sua roda de amigos gostam das tais músicas que você detesta? Que curtem futebol doentemente? Que lêem só a revista de fofoca? Que acham que novela é a melhor coisa do mundo?

O que você denomina esse tanto de coisa em comum que você tem com seus amigos envolvendo coisas nacionais? Vou numerar pela minha roda de amigos e família, ok?

Livros da Lygia Fagundes Teles;
Poesias da Cora Coralina;
O filme Lavoura Arcaica;
O folclore gaúcho e goiano;
A procissão do fogaréu da Cidade de Goiás;
Tomar Chimarrão;
Comer pão de queijo.

Eu considero esses elementos aspectos da nossa cultura e eles me fazem ter uma identidade com nosso país (sim, considero o hábito de comer um alimento um aspecto cultural). Não são só eles, claro, mas eu só quero demonstrar que temos uma vasta coletânea cultural e que não devemos esquecer disso quando bate aquele sentimento de vergonha alheia por alguma coisa que é caracterizada como brasileira e que não gostamos.

Patriotismo cego, achando que tudo que temos é lindo e maravilhoso é estupidez, claro, não apóio isso. Não apóio nenhuma atitude radical, e isso incluí taxar que TODO MUNDO que gosta de forró, sertanejo e axé é aculturado. Não pô, vai me dizer que você não gosta de nada fútil que te faz relaxar ocasionalmente?

Eu, por exemplo, não curto futebol, mas adoro vôlei. Vou a jogos da seleção brasileira quando tem na minha cidade, torço se tiver passando na tv, grito furiosa com a tela etc. É só um jogo, mas é um jogo que eu joguei quando mais nova e me identifiquei e curto assistir. Fazer o quê, curto. Ok, eu não atrapalho ninguém enquanto assisto (morte as vuvuzelas...), não deixo de trabalhar por causa disso, assim como não escuto nenhuma das minhas músicas favoritas em som alto. Esse tipo de atitude sem noção e pentelha (ou preguiçosa no caso do trabalho) com os outros ao seu redor é comum em qualquer lugar do mundo.

Digo, há pessoas egoístas assim em qualquer lugar do mundo, seja por causa de um jogo de beisebol, um anime, um livro de vampiros febre ou um astro de tv.

Gente chata e coisas que você não se identifica há em qualquer lugar do mundo. E ó, uma surpresa para quem nunca conversou com um gringo: corrupção também. Serviço social porco também. Leis que não funcionam idem...

“Ah, mas só porque eu nasci aqui não significa que eu devo louvar minha pátria”. Sim, é o seu direito achar que nada dessas características que te influenciaram enquanto você cresceu não são dignas de serem elogiadas ou fazer parte de seu orgulho.

Porém, é direito meu, e de outras pessoas, curtir isso. Eu vejo tantas coisas com olhos deslumbrados provavelmente por culpa dos meus familiares. Ouvir alguém que participou da revolução de 30, que se beneficiou dos novos direitos do trabalhador estipulado pelo Vargas, que viu a nova capital crescer, que te fala sobre as metáforas daquela letra da ditadura. Ser levado a uma cidade histórica para ver danças folclóricas e conhecer a comida local... isso tudo faz diferença. Você passa a olhar tudo isso como parte da sua identidade. E olha que musicalmente falando eu me identifico muito mais com o rock inglês (culpa dos meus familiares também) do que com chorinho, mas nunca vou falar que aquela pessoa que prefere sertanejo é pior que o americano que escuta country ou pop. Ninguém é pior ou melhor pela escolha cultural que faz (desde que não incomode ninguém...).

*Não vou entrar no mérito de cultura boa ou ruim, significativa ou fútil, isso vai acabar sendo tema de outra semana e aí vocês podem arregaçar as mangas para me detonar... Tô considerando cultura aqui escolhas e hábitos em comum de uma nação.

O mais engraçado é que algumas pessoas só vêem certas qualidades nossas quando alguém de outro país aponta. A mídia adora fazer isso, né, ela mesma quase não aponta coisas diversificadas do país inteiro (só vai com a onda do momento..), mas quando aparece um jornal estrangeiro falando alguma vantagem nossa, pronto, é tema para dois Fantástico. É preciso ir a Usp ver o tanto de alemão que tem por lá, que batalhou por uma bolsa para conseguir um intercâmbio brasileiro, para se mancar que não estamos tão ruim assim. É preciso ouvi-los elogiando diversas coisas que temos aqui para bater o estranhamento de “nossa, isso não tem no seu país? Como assim?”.


Um exemplo muito bobo que ouvi esses dias foi de uma amiga que mora com uma alemã em São Paulo. Ela comentou que na primeira vez que a menina foi fazer compras rolou uma preocupação já que ela é celíaca e, assim, não pode comer glúten. Na Alemanha ela tem uma lista elaborada por tentativa e erro (e indicação médica) com os produtos que ela pode ou não comer e aqui ela não saberia nem por onde começar, teria que ir a um médico aqui para ver isso, enfim... estava preocupadíssima, até que ela olha o rótulo de um produto qualquer brasileiro e bem grande está escrito: contém glúten. Em outro escrito produto está escrito: não contém glúten. Pronto, a menina começou a falar que aqui é o melhor país do mundo... ok, claro, exagerando, mas quem vê essa pequena observação nas embalagens e valoriza isso? Nossas leis são fracas, nosso sistema judicial não funciona, o governo é uma porcaria, mas ó, temos uma lei de embalagem que um pais taxado como primeiro mundo não tem.

Ah, então só por causa do glúten eu devo ser patriota? Não... não é isso que eu quis dizer, só quis demonstrar que ás vezes precisamos que alguém de fora destaque certas vantagens que temos aqui para nos mancarmos que a situação não é tão ruim assim. Particularmente eu não ligo muito política e situação financeira com patriotismo, eu relaciono o patriotismo ao fato de você se identificar com certos aspectos da cultura nacional e ter orgulho disso. Ponto, é isso eu que considero patriotismo válido, todos esses outros fatores políticos eu vejo como um problema seríssimo de organização e que, infelizmente, é apoiado pela maioria da população por puro comodismo ou falta de escolha.

Bem, para terminar, quero comentar sobre uma coisa que me faz ser patriota mesmo: o som do nosso português. Sou completamente apaixonada pelo som de nossas vogais, nossos L- LH – NH – R – S. Amo a sonoridade e, tá, nossa escrita (ainda mais com o português “novo”) não é a mais prática para nossa fonética (como a língua francesa em que os acentos realmente representam como a pessoa fala...), mas eu amo o português. AMO. (mesmo assassinando-o ocasionalmente como fiz nesse texto).

O post ficou grande de novo e sei que despertei o ódio de muita gente que continuou a ler corajosamente esse texto. Entretanto espero que pelo menos alguns dos leitores reclamões reflitam um pouquinho mais antes de começar o discurso de brasileiro-pobre-coitado cada vez mais comum entre os textos que leio na internet.

Até a próxima semana. Se o serviço instável de internet desse país deixar, é claro...

4 comentários:

[јuṡτ] яuαṉ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mandag Súlimo disse...

Que legal hehe, achei que só teríamos posts metendo pau no país, é bom tentar ver com os olhos de outras pessoas.

E eu não sabia que era amante do português. Infelizmente eu não compartilho do mesmo gosto, sempre amei o inglês, desde pequeno, acho que fui influenciado muito pela minha mãe que é professora de inglês e só ouve música estrangeira, e também pelos jogos de video-game que desde pequeno me faziam passar horas e horas (em média 7-10h por dia) em frente o video-game com o dicionário de inglês do lado hehe =)

Heluiza Bragança disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Senbi ∞ Phoenix disse...

apesar do meu post não ser muito de acordo com o seu , possuo alguns sentimentos que refletem ao que voce mencionou, e na verdade não achei nem extenso nem cansativo, adorei ler porque prendeu minha atenção do início ao fim , boa argumentação e escrita tb, parabéns^^